A importância do desapego no mundo executivo

Um tema do momento, muito discutido em diversos grupos, principalmente pós-pandemia, é o desapego. Mas sempre falamos de desapego na vida pessoal e não na vida profissional e esse artigo tem como objetivo trazer um pouco à tona esse aspecto do tema. Mas, para falarmos em desapego, temos que saber o que é apego.

O que entendemos como apego? É uma dedicação constante ou excessiva a alguma coisa. É o quanto tenho afeto / estima por alguma coisa, pessoa, fato. Esse afeto, às vezes, por ser demasiado, acaba afetando. Parece um jogo de palavras, mas não é. O apego é uma ligação afetuosa que gera uma ligação emocional,

Quando exageramos nessas ligações emocionais podemos nos tornar acumuladores. Acumuladores de trabalho, de deveres, de posses, da vaga do estacionamento, da mesa, do computador, do carro, por exemplo. Esses acúmulos fazem da vida algo pesado, denso.

Conheci vários executivos que tinham apego a projetos, de tal forma, que não conseguiam compartilhar, apegos a maneiras de trabalhos, a procedimentos inquestionáveis.

O apego traz o medo de mudar, porque mudar significa perder, para quem tem essa mentalidade, que nada mais é do que a mentalidade de escassez. Ou seja, a mentalidade que nos leva a pensar que temos que segurar tudo para nós porque pode faltar. Tudo é escasso no mundo.

Assim, o apego é por vezes ao cargo, ao título, às mordomias, o que impede qualquer tipo de mudança. A mudança de emprego, para outro, onde o título é de menor reconhecimento social, mas que talvez gere maior felicidade, por vezes é desqualificada, por conta da extrema identificação e apego existente ao título, ao status, ao poder, ou à equipe e até à empresa, o sobrenome assumido: eu sou fulano de tal empresa. Nesse caso, deixa-se de lado a própria identidade para assumir a da empresa.

Já que falamos de equipe e enveredamos pelo caminho do apego às pessoas, existe o apego às famílias: a minha mãe, o meu filho(a), a minha prima(o), o meu amigo(a), o meu companheiro(a). Qualquer mudança de comportamento da outra parte gera sofrimento pela possibilidade da “perda”.

Outro tipo de apego é o direcionado às diversas emoções: apego à raiva, ao medo, a tristeza, gerando distúrbios e comportamentos extremados, por vezes desnecessários.

Podemos também falar de apego a pensamentos. Ou seja, ilusões que criamos nas nossas mentes e que passam a ser verdade, ou ainda verdades que insistem em ficar presas na mente como se brincassem no carrossel, girando o tempo todo, sem sair do lugar.

Quais as consequências do apego no mundo corporativo? Um dos grandes problemas derivados do apego é a dificuldade de delegação, por não desapegar de um trabalho ou de uma tarefa. Outra dificuldade é a própria gestão, pois, na medida que o apego é direcionado a alguém da equipe, há muita resistência, por exemplo, de demissão (pois vai se perder alguém), ou até mesmo em aceitar o pedido de demissão (a pessoa se sente traído(a)). O apego também leva à rigidez nas tomadas de decisão, escolhas parciais e, no final, um grande descrédito do profissional.

As consequências para as empresas do apego excessivo são desastrosas. Citamos apenas algumas, mas é possível imaginar o desencadeamento de cada uma delas.

Sendo assim, como é desapegar-se?

Em primeiro lugar é assumir que a vida é feita de desapegos. A todo momento estamos perdendo (pele, cabelos, líquidos etc.), sem dizer dos desapegos mais difíceis como partidas, viagens etc.

Em segundo lugar, não projetar as próprias necessidades em coisas ou pessoas, como por exemplo: não vivo sem minha casa, sem uma determinada pessoa, sem uma comida, sem fumar, sem treinar etc… Percebe-se que o apego gera hábitos e hábitos geram vícios.

Em terceiro lugar, assumir que tudo pode terminar, pois a vida tem muitos ciclos e as coisas mudam.

Em quarto lugar: na presença de uma situação problema,  ir  para a solução e não ficar reclamando. Se ocorrer perda,  aproveitar o que tem e o que é hoje, pois o agora não é para sempre.

Em quinto lugar desapegar de relacionamentos tóxicos, como por exemplo de um líder, ou de um colega. Desapegar não significa romper, mas sim não se identificar com as falas, com os comentários, com o que o outro traz de pior.

Em sexto lugar: aceitação de que não se tem o controle de nada. Por exemplo. Fazer o melhor na vida profissional e desapegar.

Em sétimo lugar:  trabalhar a autoestima, pois, assim,  ninguém afeta, não há apego a ninguém.

Em oitavo lugar: não se apegar a ilusões. Aceitar a realidade e lidar com ela, entendendo seus ciclos, seus desafios e as mudanças inerentes.

Enfim, o desapego é irmão da aceitação que são primos da liberdade. Não é isso que tanto queremos?

Reflita e deixe seu comentário.

 

Profª. Dra. Fátima Motta

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