O Desenvolvimento de Executivos como um grande desafio

Esse é um tema que me atrai muito, uma vez que, por atender executivos como mentora, ou ainda, em Programas de Desenvolvimento de Liderança, vejo a grande necessidade de um trabalho bastante sério e profundo de desenvolvimento para esse público. Nem sempre considerado foco de esforços por parte da empresa, os executivos são categorizados como um público que não apresenta mais necessidade de desenvolvimento, uma vez que os desafios vencidos já foram muitos.

Infelizmente a realidade não é essa, seja porque, cada vez que um profissional muda seu nível profissional, como diz Ram Charam, no seu livro Pipeline da Liderança, há necessidade de novas competências, diferentes formas de alocação de tempo e de revisão dos aspectos valorizados até então. E ainda, a velocidade das mudanças imposta pela tecnologia, torna facilmente os conhecimentos e competências obsoletas.

O fato é que precisamos considerar que, a cada movimentação na carreira, o executivo precisa aprender a sentar-se e a ocupar uma nova cadeira e nem sempre está preparado mental e emocionalmente para isso. Entre outras, a necessidade de desenvolvimento das chamadas Soft Skills, que englobam a qualidade das interações formais e informais, a comunicação, o propósito, os valores, a autoconfiança, a empatia, a sensibilidade, o reconhecimento das diferenças individuais e, principalmente o autoconhecimento, são essenciais, mas nem sempre valorizadas.

Estudando mais de perto o assunto, constato que muitas dificuldades e problemas dos executivos no desenvolvimento das soft skills, como a excessiva centralização, dificuldade de posicionamento, descaso pelas questões mais humanas, excesso de trabalho, entre outros, são originados de questões pessoais, advindos da mais tenra infância. Sendo assim, torna-se preponderante aos executivos investirem em processos que lhe possibilitem aprofundar-se em si mesmos, em sua história de vida, em sua personalidade, para que sua preparação e desenvolvimento sejam mais efetivos.

É um trabalho individual, profundo e consistente, feito junto a profissionais especializados, como mentores ou psicanalistas, que possam auxiliar nesse mergulho no “ser”. Toda formação dos executivos se deu, durante muitos anos, no desenvolvimento das hard skills como obtenção de resultados, desenvolvimento de forças, na eliminação (se é que é possível) das fraquezas, na identificação dos KPIs, na formação de equipes de alta performance, na elaboração de estratégias, nos controles orçamentários, entre outras importantes competências.

Sem dúvida, essas competências são extremamente importantes, mas chegou a hora de desenvolver competências diferentes como Aprender a Aprender, Formação de Times Diversos, Inteligência Interpessoal, Conexão, Inteligência Inter artificial, Simplicidade, Empatia, Colaboração, conectadas e dependentes da Inteligência Intrapessoal, ou seja, do autoconhecimento.

A explicação dessa dependência está no aspecto que todas dependem de um movimento interno, do “ser”, para que se expanda ao externo, através de decisões e comportamentos colaborativos e interdependentes.

O início desse desenvolvimento precisa ser feito o quanto antes, porque não são competências rápidas a serem instaladas nos executivos. Eu diria que, muitas vezes não se tem a condição de desenvolvê-las no prazo exímio que se apresenta e os executivos perdem grandes oportunidades de crescimento pessoal e profissional.

Esse processo de desenvolvimento depende da escolha individual e de uma profunda sinceridade em relação às próprias resistências e à dificuldade de auto-observação. Sugiro, então, alguns passos importantes:

1. Diagnóstico

A partir da identificação do seu nível hierárquico, identifique quais as competências realmente necessárias para esse momento (pode ser através da leitura do Pipeline da Liderança) ou de uma conversa profunda com profissionais que estejam em um passo além do que seu. Ainda, a observação de executivos de sucesso e a identificação das competências que apresentam, é um bom caminho.

Pergunte-se e responda com sinceridade a respeito do seu grau de felicidade e completude em todas as áreas da sua vida.

Peça feedback (de preferência anônimo), a várias pessoas, tanto do seu âmbito pessoal como profissional.

Relacione seus principais sucessos e fracassos (se não encontrar nenhum, talvez esteja preso ao que se chama de autoengano).

(Nem sempre esse diagnóstico é fácil de ser feito sem a ajuda de um profissional especializado, pela dificuldade que se tem em olhar-se).

2.  Identificação das Competências a serem desenvolvidas

Compare as competências atuais com as competências a serem desenvolvidas e defina a prioridade de desenvolvimento, levando em consideração todos os feedbacks e as diversas áreas da sua vida.

3. Aprofundamento na Personalidade

Mergulhe na compreensão da sua personalidade, nos seus vícios emocionais, nos seus bloqueios e resistências.

Faça um trabalho profundo para ressignificar modelos mentais e crenças.

4. Desenvolvimento de Competências

Leituras, participação em programas de desenvolvimento avançados, auto-observação das posturas e comportamentos junto aos colaboradores, pares, conselho, diretoria, identificando possíveis avanços e dificuldades apresentadas.

5. Realocação do Tempo

Dedique tempo para o que é importante para o seu nível hierárquico. Delegue o que não precisa mais da sua atenção. Coloque foco nos resultados, mas, ainda mais, nas pessoas que fazem esse resultado acontecer.

6. Revisão dos Valores

Se antes existia um valor muito grande em fazer e ter, agora precisa desenvolver o “ser” íntegro e humano. O valor maior é a equipe, que, além de ser vista e orientada, depende de estímulos e da presença efetiva da liderança, que assume para si a responsabilidade do sucesso e do fracasso.

Esses são os primeiros passos de uma gestão consciente do nosso momento, tão particular e intrigante.

Esse é um breve resumo dos passos iniciais para um executivo pensar no processo de tirar o foco de si e colocar efetivamente o foco na sua equipe, servindo-a, para que consiga não só os melhores resultados, mas também para que seja o alicerce de pessoas que estejam felizes naquilo que fazem, produzindo algo de real valor para a sociedade.

Por ser um breve artigo, o que aqui foi apresentado é um pequeno esboço de algo que deve ser aprofundado, principalmente porque os líderes em geral, mas, em especial os que estão em um grau hierárquico elevado, precisam considerar e trabalhar em si, para que consigam levar a cabo sua missão e seu propósito.

Profa. Dra. Fátima Motta

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