Outro dia eu me observei conversando com a IA, mantendo um diálogo até que agradável acerca de uma informação que estava precisando, conversa essa que seria difícil estabelecer com outra pessoa, dado o nível de dados necessários e profundidade de análise. Eu me assustei com essa constatação e, por isso, resolvi explorar esse assunto.
Você já se percebeu conversando com a IA e não olhando para seus pares, companheiros(as), filhos(as)? Já se assustou com isso?
Sabe que, cada vez mais, as pessoas preferem “conversar” com a IA a puxar papo com colegas, parceiros ou até familiares? Isso não é só modismo tecnológico. Estamos frente a frente de um sintoma de mudanças profundas no jeito como trabalhamos, nos informamos e lidamos com emoções — somado a uma epidemia silenciosa de solidão.
O pano de fundo: uso massivo de IA + solidão crescente
Alguns dados que pedi para IA levantar: o uso de chatbots e ferramentas de IA cresceu rápido. Nos EUA, a parcela de adultos que já usou o ChatGPT praticamente dobrou desde 2023 e alcançou 34% em 2025. Entre os jovens, a penetração é muito maior. No Reino Unido, 41% dos internautas usaram alguma IA generativa no último ano; entre 16–24 anos, o índice chega a 78%. “Buscar informação” é o uso nº 1, e até “apoio emocional/terapêutico” já aparece — ainda que minoritário (6%). Ao mesmo tempo, a solidão virou questão de saúde pública. O Cirurgião-Geral dos EUA estimou que cerca de metade dos adultos relata solidão com regularidade. No Brasil, estudos recentes discutem a solidão como “ameaça silenciosa”, com levantamentos internacionais indicando índices altos no país.
Por que a IA “ganha” a conversa?
1) Disponibilidade total e baixo atrito. A IA está a um clique: não exige agenda, não julga, não interrompe. Em ambientes de trabalho abarrotados, 75% dos trabalhadores do conhecimento já recorrem à IA para aliviar a carga e o ritmo — muitas vezes com ferramentas pessoais, fora da TI corporativa.
2) Segurança psicológica sem custo social. Pedir ajuda a um colega pode parecer arriscado (expor dúvidas, parecer “fraco”). Com a IA, a pessoa sente que pode errar sem vergonha — especialmente quem está começando a carreira ou transita por áreas novas. Pesquisas mostram que “buscar informação/ conteúdo” é o uso principal, mas já surge o uso emocional (6%), um indício de que parte das pessoas encontra acolhimento básico no diálogo com máquinas.
3) Eficiência e controle do ritmo. Com a IA, a conversa segue no seu tempo: dá para pausar, pedir resumos, pedir outra versão, retomar depois. Um levantamento AP-NORC mostra que “buscar informação” é a aplicação mais comum, com jovens muito mais propensos a usar IA para brainstorming — um uso conversacional por natureza.
4) Menos fricção emocional num mundo mais solitário. Quando metade da população relata solidão, é compreensível que alguns troquem interações humanas incertas por diálogos “controláveis” com assistentes. Há menos risco de conflito, rejeição ou cansaço social — sobretudo para quem está esgotado. A IA tende a compor diálogos muito educados, fortalecendo a opinião do usuário, ou seja, “fala” o que se quer ouvir.
5) Companheirismo “suficiente” para tarefas simples. Plataformas conversacionais vêm acumulando uso intenso (picos de dezenas de milhões de usuários/mês e sessões longas), sinalizando que parte do público encontra valor relacional básico nessas interações — ainda que não substituam relações profundas. E, para que relações profundas em um mundo onde o líquido, como Bauman traz, o descarte e o superficial são mais importantes?
O que perdemos quando trocamos gente por IA?
- Nuance e co-criação emocional. Máquinas ainda têm limitações em empatia vivida, leitura de contexto social fino e construção de confiança mútua ao longo do tempo. A IA pode “parecer” empática, mas não partilha experiência.
- Capital social e sentido de pertencimento. Nenhum sentimento de pertencimento deriva do relacionamento com IA e nada de capital social, ou seja, nada de construção de amizades e relações verdadeiras. Perde-se a oportunidade de desenvolver relações reais que ampliam oportunidades, protegem saúde mental e física e aumentam a longevidade — evidências ligam conexão social a menor risco de morte e doenças crônicas.
- Aprendizagem social e criatividade coletiva. Ideias nascem do atrito produtivo entre diferenças. Se terceirizamos conversas difíceis para a IA, empobrecemos repertório, leitura de sala e habilidade de negociar sentidos. Isso explica porque dificilmente prefere-se a leitura a uma série e, eu, como professora, percebo a dificuldade de expressão, contato e amplitude de vocabulário presente na maioria dos alunos.
Por que isso importa para líderes e empresas
- Produtividade sem isolamento. O dado da Microsoft (75% usando IA) sugere benefício real de eficiência. Mas eficiência sem conexão degrada cultura e aumenta rotatividade. Líderes precisam de dois trilhos: IA para foco e velocidade + rituais humanos que preservem vínculo, feedback e aprendizado entre pares.
- Saúde mental e performance. Solidão custa caro (absenteísmo, erros, burnout). Instituições de saúde e órgãos públicos tratam o tema como epidemia — é estratégico redesenhar o trabalho para reconectar pessoas.
- Ética e confiança. Embora muitos usem IA para buscar informação, poucos confiam plenamente na confiabilidade dos resultados. Políticas claras de uso, checagem e transparência evitam decisões frágeis e reputação abalada.
Como reequilibrar: 7 movimentos práticos
- Intensifique as conexões, definindo momentos importantes de conexão: decisões sensíveis, conflitos, feedback, carreira e saúde mental exigem conversa humana síncrona. (A IA pode preparar a pauta, não substituir a relação.)
- Rituais de conexão de alta qualidade. Troque reuniões longas por check-ins curtos com três perguntas de escuta ativa: Como você está? O que te energiza? Onde precisa de apoio?
- Pareamento humano + IA. Para tarefas cognitivas, combine duplas/trios de pessoas com um assistente de IA: a máquina acelera, o time debate e decide.
- Treine conversas difíceis. Competências de escuta, CNV e coaching reduzem o “custo social” de pedir ajuda — e tornam a IA uma aliada, não uma muleta.
- Espaços sem tela. Institua janelas curtas de foco offline e encontros presenciais intencionais (com propósito claro, não “café aleatório”).
- Políticas de IA com confiança. Estabeleça boas práticas: registrar fontes, checar fatos, rotular conteúdo gerado por IA e usar peer review humano em entregas críticas — lembrando que muitos usuários não confiam totalmente na IA para informação.
- Em casa, estabelecer um clima harmônico em que a conversa seja de aceitação, colaboração, compreensão e amor, refutando a presença de celulares, notes, ou qualquer outra ferramenta.
Profa. Dra. Fátima Motta



