Estou prestes a ter um Burnout!!!

Essa é uma frase que ouço com frequência no meu trabalho como mentora e consultora de líderes e executivos. Na maioria das vezes, quem diz isso está exausto(a), sobrecarregado(a) de responsabilidades, sem tempo para si e mergulhado(a) em uma rotina sufocante. Mas, ao investigarmos com mais cuidado o que está por trás desse sentimento, um padrão se revela com clareza: a dificuldade de delegar.

Delegar é um dos marcos mais decisivos na transição da liderança de si para a liderança dos outros. E é justamente essa transição que Ram Charan descreve no livro Pipeline da Liderança, ao explicar os diversos estágios de desenvolvimento de um líder. No primeiro estágio, o profissional ainda está muito ligado à execução direta das tarefas é competente, produtivo e tem prazer em fazer bem feito. Mas ao dar o próximo passo, algo precisa mudar.

 

O desafio de sair da operação

Delegar não é apenas repassar tarefas. É um exercício de confiança, de paciência e, sobretudo, de desapego. Desapegar-se da zona de conforto é o primeiro obstáculo. Muitos líderes foram promovidos justamente por sua excelência técnica e continuam preferindo fazer aquilo que dominam, mesmo depois de serem promovidos a líderes de líderes, pois é rápido, eficaz e, muitas vezes, até prazeroso. Há também um fator emocional: fazer dá uma sensação de utilidade imediata, enquanto liderar exige esperar resultados que vêm a médio ou longo prazo. Outro ponto crítico é o perfeccionismo. Quantas vezes você já ouviu, ou disse, frases como:

 

“É mais rápido se eu fizer.” “Ninguém faz tão bem quanto eu.” “Se eu deixar na mão dele, vai sair errado.”

 

Esses pensamentos, embora compreensíveis, se tornam armadilhas perigosas. Porque ninguém aprende a liderar sem errar. E ninguém se desenvolve sob a vigilância constante de um líder que não permite espaço para tentativas.

 

As resistências à delegação

Algumas resistências à delegação são visíveis, outras são silenciosas e internalizadas. As mais comuns são:

  • Medo de perder o controle
  • Ansiedade pelo resultado não sair como o esperado
  • Falta de confiança na equipe
  • Crença inconsciente de que “bons líderes dão conta de tudo”

 

Mas o custo de manter esse controle total é altíssimo. O líder se torna gargalo, trava o crescimento dos colaboradores e, inevitavelmente, caminha para o esgotamento físico e mental. É aí que surge o burnout, não como um evento súbito, mas como uma construção diária de acúmulos, pressões e ausência de pausas.

 

Os ganhos de delegar

Por outro lado, quando o líder aprende a delegar, os ganhos são significativos:

  • Liberação de tempo para pensar estrategicamente
  • Desenvolvimento da equipe e aumento da motivação
  • Fortalecimento da confiança mútua
  • Aumento da produtividade sustentável
  • Redução do risco de adoecimento

 

Delegar é um ato de generosidade e maturidade. Exige que o líder reconheça que seu papel não é mais fazer, mas fazer com que os outros consigam fazer.

 

A ponte com o burnout

Voltando ao início deste texto: quando alguém me diz “estou prestes a ter um burnout”, minha pergunta não é apenas “quanto você está trabalhando?”, mas sim:

 

O que você está insistindo em continuar fazendo, que já poderia estar nas mãos de outra pessoa?

 

Na maioria dos casos, o esgotamento não vem só da quantidade de tarefas, mas do desequilíbrio entre o que se faz e o que se deveria estar fazendo. A liderança exige foco em desenvolver pessoas e construir resultados coletivos. E isso só acontece com delegação, com aceitação do erro como parte do processo e com disposição para formar um time capaz de andar com autonomia. Se você sente que está no limite, talvez seja hora de mudar o foco: menos fazer, mais fazer acontecer através dos outros. Essa é uma escolha que exige coragem, mas pode ser a chave para preservar sua saúde, desenvolver sua equipe e crescer de forma sustentável.

 

Profa. Dra. Fátima Motta

5 Post Views
plugins premium WordPress