O verbo ser… esquecido do humano (Parte 1/4)

A intenção desta série de artigos é chegar mais próximo da verdade, questionando a máscara presente nas relações interpessoais, em especial, aquelas usadas tão freqüentemente pelos profissionais. Nesses mais de 25 anos de trabalho junto a proprietários e presidentes de empresas, diretores, gerentes, professores e consultores dos mais diversos ramos de negócio, o que sempre me chamou a atenção foi o grande esforço que fazemos para manter as aparências, usando a eterna máscara de sucesso presente nas conversas formais e informais. 

Isso me leva a algumas questões. 

Existe em cada um de nós, profissionais, a real consciência do que queremos ser? 

De onde e como queremos aplicar nossa energia e nosso tempo? Ou seja, fala-se tanto de objetivos para as áreas, para os projetos e pouco se fala de objetivos pessoais. 

Será que temos nosso real objetivo de vida claro? Sabemos aonde queremos chegar de fato? 

Os resultados profissionais que atingimos satisfazem-nos verdadeiramente? Aquele negócio fechado, o cliente conquistado, o projeto realizado, a promoção tão esperada etc. são suficientes para que nos sintamos motivados, ou a satisfação é apenas aparente. 

Existe um sentimento de plenitude ou de extremo vazio? 

O que se observa é uma grande contradição presente no mundo das empresas, talvez ainda não percebida na sua profundidade. 

Vivemos um momento em que os times esportivos são modelos utilizados para formas de trabalho em equipe – teamwork – mas, ainda, o que mais se vê é o time do “eu sozinho”, de competição e da concorrência. Até que ponto as empresas tem condições básicas para trabalhar e construir time? 

Até que ponto os profissionais sabem compartilhar o sucesso, cooperar e ter um objetivo comum, condições básicas para o trabalho em time. 

Ao mesmo tempo que existe uma necessidade cada dia maior de vencer a concorrência (seja empresarial, seja pessoal) é preciso que se trabalhe em parcerias e em times. Quem vence e quem sabe mais, quem tem mais informação, mas, cada vez menos tempo se tem face ao volume de material disponível. 

Outro aspecto a se considerar, não menos contraditório é o interesse crescente pela espiritualidade, demonstrado na necessidade de maior paz de espírito, tranquilidade, equilíbrio pessoal, e na grande busca pelo autoconhecimento, que vem se espalhando pelo mundo inteiro, com a velocidade da globalização. 

A contradição é que a mente racional é tão requisitada que o espírito fica em segundo plano (ou talvez nem plano tenha). 

Que tal ficar sem pensar? Que tal dar trégua à nossa mente e simplesmente respirar, apenas ser? Parece quase uma proposta indecente, para quem tem que utilizar todos os segundos disponíveis para pensar, pensar, pensar, tomar decisões, sair na frente, ser criativo. 

O interessante é perceber que, com o passar do tempo, vai se perdendo a criatividade, vai se perdendo a vontade, e aí, com certeza a culpa é do stress. Bem, é fácil resolver… só tirar algumas férias… um dia quando for possível. 

Inconscientemente está a insegurança de poder ser muito bem substituído e, conscientemente as desculpas agora são: agora não dá, apareceu um novo projeto, falta de colaboradores, problema na empresa, solicitação da presidência. Ao fim de toda uma luta interna… uma semana de férias!!! (semana essa talvez passada em meio a vários telefonemas para o escritório). 

No meio dessa pequena semana de férias, olha-se para o espelho, e na televisão outra contradição fica evidente: a importância da manutenção do vigor físico e, no espelho, o corpo aparece meio velho, e sem vida, gordo e flácido, ou apresenta uma grande tendência para tudo isso. Aquela partida de tênis, aquela caminhada, aquele futebolzinho… são muito pesados, começa a faltar o ar. Deixa para lá, um uísque ajuda a esquecer… 

E aí, o corpo fica para uma próxima vez, como se não tivesse a menor importância, como se fosse possível fazer alguma coisa sem ele. 

Percebe-se, então, que as férias terminaram e que a melhor coisa a fazer é voltar a trabalhar e não pensar. Estranho esse raciocínio uma vez que, o que mais se faz quando se trabalha é pensar. Aqui, então, mais uma das contradições: pensa-se é verdade, e muito, mas pensa-se nos problemas da empresa, do trabalho, do projeto, e se coloca toda a energia vital a serviço de outros objetivos, talvez utilizando um raciocínio muito comum: é assim que sei ganhar a vida e fazer dinheiro.   

Como começa todo esse problema? 

O problema começa muito cedo, no momento da escolha profissional. Bom, com 17 ou 18 anos, pouco e nada se sabe da vida e é nessa idade que se resolve ser médico, engenheiro, advogado, administrador, psicólogo, veterinário etc. E é nesse momento em que decidimos um dos maiores motivos para nossa felicidade ou infelicidade. 

Voltemos, então, ao passado: com base em que fizemos a nossa opção profissional? 

Sugestão dos pais, “dava dinheiro”, era a tendência do mercado, era necessidade do momento, do local, era mais fácil entrar na faculdade e daí por diante. Talvez poucos de nós podemos dizer que fizemos a opção da formação profissional porque realmente gostávamos e nos identificávamos com a escolha. Então, temos médicos que gostariam de ser cantores de ópera, presidentes de empresa que gostariam de ser juízes, gerentes de informática que gostariam de ser veterinários e advogados que gostariam de ser músicos. 

Nesse momento cada um de nós poderia se questionar sobre os próprios sonhos, onde foram parar? 

Tenho certeza de que a maioria das pessoas que consegue realização profissional são as que amam o que fazem e que continuam sonhando e lutando por seus objetivos. 

Até o próximo artigo!

Grande abraço,

Fátima Motta

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