Por que valeu a pena estar vivo?

Essa é uma pergunta que sempre faço aos meus alunos; por que valeu a pena estar vivo hoje? Por que valeu a pena estar vivo esta semana? E, talvez, hoje na porta de um Novo Ano, a pergunta é até mais propícia: por que valeu a pena estar vivo este ano?

 

Acredito que não seja uma pergunta fácil de ser respondida, pelo tanto que as pessoas me olham estranhas quando param para pensar na resposta. Eu me pergunto onde fica essa grande dificuldade e entendo que esteja na direta relação com a mecanicidade que nos impomos no dia a dia.

 

Estou simplesmente vivo(a). Isso não basta? Ainda tenho que me preocupar se valeu a pena? Deixa eu ir para a Netflix, ou para o Instagran, Facebook, whatsapp, mas, por favor não me faça pensar… Essa é a resposta da maioria das pessoas quando essa pergunta soa aos seus ouvidos como uma bomba silenciosa e enigmática. E, talvez, justamente agora, você pare de ler esse artigo. Mas, se tiver coragem… continue…

 

E assim, dia após dia, o significado da vida se esvai, até que chega o último dia do ano e se espera ansiosamente pelo início do outro ano. Parece que a virada da folhinha fará uma virada na vida. E pode fazer, desde que haja a tomada de consciência sobre alguns pontos. Eu fiz essa reflexão e compartilho com vocês, quatro principais pontos, para que essa virada de página aconteça de verdade:

 

1. O primeiro ponto é a Integração do que aconteceu com o que se deseja.

Vamos lá! Cada alegria e tristeza, cada ansiedade e preocupação, cada expectativa e frustração precisam ser integradas ao “novo momento”, seja ele um novo ano, ou apenas uma fase. Portanto, não concordo de nenhuma forma quando ouço pessoas falarem: ainda bem que o novo momento (vc pode substituir por nova empresa, novos colegas, novos recursos, novo ano) chegou e podemos jogar fora tudo que for velho ou o que gerou sofrimento e dor. Esse descarte é um desperdício! Acredito que tudo vale a pena. Tudo precisa ser integrado como experiência de vida. Tudo é aprendizado. Só que, para que tudo seja integrado, precisa ser de fato vivido, sentido, sofrido, valorizado. Portanto, aí está o valor da pergunta: por que valeu a pena viver esse dia? E, claro, dar valor ao que tem valor e não a coisas banais ou que já fazem parte do cotidiano.

 

Valeu a pena viver porque aprendi algo sobre mim ou sobre o outro;

 

valeu a pena viver porque cresci ou ajudei alguém a crescer;

 

valeu a pena viver porque aprendi que não sou onipotente;

 

valeu a pena viver porque aprendi que dependo dos outros e que outros dependem de mim;

 

aprendi a respirar antes de falar bobagem;

 

aprendi que o sofrimento e a tristeza são tão importantes quanto a alegria.

 

E assim, seria possível enumerar outros tantos fatos que talvez pudessem ser motivos para a vida, como: valeu a pena viver para ouvir o canto de um pássaro que estava na minha janela, valeu a pena viver para sentir o vento no meu rosto, valeu a pena viver para sentir o sol na minha pela, valeu a pena viver para ouvir ou tocar uma música, valeu a pena viver para dar ou ganhar um beijo em alguém especial…

 

Aproveite para fazer aqui a sua lista… Por que valeu a pena viver? E aproprie-se de cada momento para que, ao virar a folhinha, cada momento de valor se integre ao novo dia, momento, projeto etc…

 

2. O segundo ponto é não olhar para o que não considerou bom como uma energia negativa.

Que precisa ser tirada, lavada, atirada ao mar (até porque não temos o direito de sujar as águas sagradas com a nossa impureza… é muita indelicadeza, falta de educação e o que quiser chamar… poluir com o que não gostamos as águas, com a desculpa que as ondas levam…). Nem sempre o que se deseja é o que realmente precisamos. Então, talvez aquilo que se considere “ruim” seja a melhor parte do aprendizado… o remédio amargo que cura. Aproveite a virada da folhinha para sentir a cura do remédio amargo. E agradecer… nada como um remédio amargo para trazer de volta a coragem de enfrentar cada perigo, cada decepção, cada dor, cada desafio. É exatamente aí que entra a gratidão.

 

3. O terceiro ponto é identificar onde está, nesse momento, o desejo.

O que, de fato se deseja. Não o que a sociedade quer, a família, a empresa, o cônjuge, os amigos, mas o que você deseja. Apesar de soar como autoajuda, talvez esse seja, para algumas pessoas, o maior desafio. Saber o que de fato deseja (fazer, ser, estudar, comer, viajar….) onde quer colocar sua energia. Aquele desejo que tem pulsão de vida (Freud explica), que sustenta o investimento de energia. Não apenas uma vontade passageira, mas um desejo de vida.

 

É aí que deveria ser concentrada nossa ação, sem medo, nem vergonha, com coragem para assumir o risco. Esse poderia ser nosso desejo para o próximo momento de vida (que pode ser para o dia seguinte, para o próximo ano, para o próximo projeto etc….). Lembrando que somos seres desejantes e que sempre um desejo, assim que for satisfeito, dará lugar para outro, e para outro, e para outro.

 

4. O quarto ponto, não menos importante, é tirar a expectativa da frente e simplesmente aceitar que tudo é como deve ser.

Ou seja, fazer o melhor, ser o melhor, desenvolver as melhores competências, sem esperar que o desejo seja satisfeito, como uma obrigação que o universo tem, uma dívida contraída, uma vez que foi feita a sua parte. Até porque é o desejo que nos move e, talvez, pela busca da satisfação, outras tantas coisas podem aparecer no caminho que deem valor à vida, que o desejo fica como aquele ponto quase inalcançável, mas que ajuda a alcançar prendas de valor incalculável.

 

Então, aparece a irmã da ausência de expectativa que é a aceitação, que consegue apreciar a chuva e o sol, o vento e a calmaria, a tempestade e a bonança, com o mesmo olhar de gratidão e presença, porque entende que acima do desejo individual se encontra algo maior, mais complexo e profundo, do qual ainda não se consegue entender bem, que é o simples pulsar do universo que conduz e também mobiliza nossas energias na direção de um aprendizado e crescimento maior, do qual, assim como crianças, não sabemos e não entendemos.

 

Finalizando essa breve reflexão, com um sorriso nos lábios, assumo que essa proposta não é fácil, não é para todos e, tenho certeza que, para o leitor (que conseguiu chegar até aqui), fica, assim como para mim, uma imensa vontade de virar a folhinha, seja ela um calendário, ou um Excel, Word, Power Point, ou outro programa qualquer, para integrar vivências e experiências, abençoando cada dia que chega, com seus desafios e oportunidade, dores e alegrias, para crescer na capacidade apenas de “ser”.

 

Fátima Motta

publicação dezembro/2022 – Total de 60 visualizações até a data de 20/01/2023

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