A Angústia do Líder que não leva seu time ao resultado esperado

Assistindo ao final da Copa de 2018, uma pergunta ficou presente o tempo todo: Como estará o Tite (técnico da seleção brasileira)? Deve estar se perguntando onde errou e se preparando a responder aos repórteres esportivos, aos diversos meios de comunicação e às pessoas próximas, esta mesma pergunta. Onde você errou, Tite? O que poderia ter feito melhor, Tite?

 

E, com certeza, bilhões de respostas dadas por outros começarão a surgir. Não deveria ter feito isso, não deveria ter feito aquilo, deveria ter feito isso, deveria ter feito aquilo….

 

Mas, ao mesmo tempo em eu permitia que minha mente me levasse a essa preocupação, outros tantos líderes desfilaram na minha frente, líderes esses que passaram pela mesma situação que Tite está passando agora e eu gostaria muito de ter uma resposta para isso, mas sinto dizer que não tenho.

 

Líder erra, líder não chega sempre aos melhores resultados, líder se frustra e frustra os outros. Por que? Nesse momento não tenho uma única resposta, mas tenho considerações a fazer. Sabe-se que liderança é um grande entrecruzamento de forças, das mais diversas. Em primeiro lugar está a própria característica do líder, com seus traços de personalidade, feridas emocionais, medos, insegurança, sua autoestima, sua autoconfiança e autogestão. Depois, as características de cada um dos liderados, também de uma complexidade espantosa, desde sua formação, a família a que pertencem, passando pela personalidade, objetivos, sonhos e valores. Ainda compondo esse entrecruzamento está a situação que se apresenta com aspectos ligados ao ambiente, fornecedores, concorrência, estratégia, valores, visão, o clima, o vento, o sol, a lua entre outros. Ou seja, são inúmeras variáveis que, como em um jogo, podem levar ao sucesso ou insucesso de um time.

 

O mais interessante é que essas mesmas variáveis, dependendo do resultado obtido poderão ser julgadas como boas ou más. Se o Brasil tivesse conseguido ser campeão, cada uma das falas e ações do Tite seriam reconhecidas como uma nova forma de liderança, e, em pouco tempo, Tite estaria dando palestras no Brasil e no mundo. Se, por outro lado, o Brasil não leva a taça de campeão, as mesmas falas se enchem de críticas, tornando o Tite alvo de críticas. Esse é o mesmo movimento que vejo acontecer nas diversas empresas onde dou consultoria, líderes sendo valorizados e outros sendo demitidos porque não chegam ao resultado esperado. Motivos? Os mais variados, desde a competência insuficiente, passando pela equipe mal formada, caminhando pela falta de flexibilidade, falta de inteligência emocional, chegando a questões de compliance e de valores.

 

Em alguns casos, realmente o líder parou no tempo e não desenvolveu competências suficientes para lidar com todas as atuais demandas. Em outros, as questões de equipe realmente são preocupantes e, por diversos motivos, o líder perdeu o timing para fazer as substituições necessárias. Existem também as questões de absoluta rigidez, dificuldade de lidar com situações adversas, e, em casos mais sérios, valores incompatíveis com a empresa.

 

Mas, e se tudo isso está ok? Se o líder tem competência, tem visão, tem uma boa equipe, é flexível, tem inteligência emocional, é resiliente, tem valores absolutamente conectados com a empresa e, mesmo assim não consegue os resultados necessários?

 

Com certeza vamos dar mil e uma respostas, todas elas apenas conjecturas. E, pelo que vejo, muitas vezes é o resultado esperado que está absolutamente fora do possível, ou são as situações externas de tal forma impactantes, que o resultado não veio e não viria para ninguém. Mas, o mais interessante é que, muitas vezes esse líder é demitido, outro vem, acaba também saindo e chegam um terceiro, ou quarto, talvez, que “põe ordem na casa”. No entanto, o que não se observa é que o tempo também mudou, as características da situação também mudaram e o resultado aconteceu conforme o esperado. Então, gostaria de tornar um pouco mais real o que se entende como resultado e evitar que o estrago seja muito grande na autoestima dos que aqueles, como Tite, enfrentam uma derrota.

 

A primeira coisa a pensar é em todas as outras vitórias que foram conquistadas ao longo do caminho. Foram fruto das competências desse líder, da forma como lidou com a sua equipe, dos entrecruzamentos positivos que aconteceram. Isso não o torna um líder infalível ou um líder que consegue ganhar sempre, independentemente da situação. Mas também não o torna um incapaz porque não chegou ao resultado previsto.

 

Inclusive, o interessante é que sempre se fala dos resultados obtidos, mas nunca o tempo que se leva para chegar a esses resultados, a experiência necessária, as noites mal dormidas e o trabalho realizado. Resultado não é mágica, é muito trabalho envolvido. Então, resgatar tudo que já se conseguiu, ajuda a equilibrar um determinado fracasso, com vitórias também conquistadas.  Ajuda a não se perder a autoconfiança para a autogestão e gestão da equipe.

 

Talvez inconscientemente o líder acredite que não merece ser o melhor da sua empresa, e, sem querer, pode se boicotar para não conquistar um alto desempenho. Nesses casos, o melhor que tem a fazer é ir no fundo ao autoconhecimento, com técnicas terapêuticas para que se cure desse negar de si mesmo.

 

Mas, se também esse não é o caso, além de reconhecer todos os pontos positivos que possui e os pontos positivos da equipe, talvez o mais adequado seja continuar fazendo o melhor que pode. O mais importante é “alargar a visão” o máximo possível. Dedicação e comprometimento ajudam também a aguardar  que a situação mude e, enquanto isso fortalecer-se com toda munição necessária para enxergar a situação de outra forma, desenvolver novas ideias, fortalecer o sentimento de equipe, buscando a contribuição de cada colaborador/ parceiro para ultrapassar as dificuldades, juntos, unidos, confiantes e audazes. É entender que alguma coisa deu errada no entrecruzamento das forças. Pode ser que a empresa espere a maré baixar, mas, caso isso não ocorra, é essa postura de vencedor e não de derrotado,  a chave para que, como líder do próximo time, novas vitórias aconteçam.

 

Continuo sem dar uma única resposta, mas finalizo trazendo um agradecimento para quando não se chega às metas, porque é uma grande oportunidade de crescimento e reconhecimento de todos esses entrecruzamentos que estão diariamente frente aos nossos olhos, mas que nem sempre conseguimos percebê-los.

 

Então, deixo uma pergunta:  Você já pensou quais novas competências precisa desenvolver?

 

Profa. Dra. Fátima Motta – julho / 2018

 

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